Futuro da saúde

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A contratação da empresa responsável pela construção no IPT do Núcleo de Tecnologias Avançadas para Bem-Estar e Saúde Aplicados às Ciências da Vida, o Nutabes, foi anunciada ontem, 30 de outubro, em evento que reuniu os diversos parceiros de uma das primeiras pesquisas a serem abrigadas pelo núcleo, que é a segunda etapa do projeto ‘Sistematização do método de xenotransplante no Brasil’, com foco na viabilização clínica da técnica.

A Biotec Solução Ambiental será a responsável pela construção do núcleo no campus do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, que terá no total uma estrutura de 1.650 metros quadrados com três pavimentos, nos quais serão instalados a pig facility (biotério de suíno), a área técnica e o laboratório multiusuário com estrutura flexível, totalmente customizável, para desenvolvimento de projetos disruptivos de P&D. 

O núcleo terá como meta o desenvolvimento de projetos que visam à melhoria da qualidade de vida e o bem-estar da sociedade a partir de tecnologias inovadoras tendo como base a interconexão do tripé saúde humana, animal e ambiental. "A pandemia do novo coronavírus reforçou este conceito de visão integrada de saúde, que se refere a uma abordagem multidisciplinar considerando os três pilares como indissociáveis: qualquer alteração nestas relações provoca desequilíbrios e sérias consequências na saúde humana", explicou  a coordenadora do futuro núcleo do IPT, Helena Correa de Araújo Gomes.

Com uma estrutura de excelência, a primeira do tipo na América Latina, a pig facility do Nutabes será destinada para a criação de suínos geneticamente modificados livres de agentes patogênicos destinados aos ensaios envolvendo xenotransplante –
Gomes: pandemia do novo coronavírus reforçou conceito de visão integrada de saúde, que se refere a uma abordagem multidisciplinar considerando os três pilares (humano, animal e ambiental) como indissociáveis
Gomes: pandemia do novo coronavírus reforçou conceito de visão integrada de saúde, que se refere a uma abordagem multidisciplinar considerando os três pilares (humano, animal e ambiental) como indissociáveis
o termo se refere ao transplante de um órgão, tecido ou células de um animal a outro de espécie distinta, e os suínos se constituirão em doadores universais e poderão ser utilizados para transplantes de pele, coração, córneas, rins etc.

PARCERIA – O projeto de sistematização do método de xenotransplante é uma parceria firmada entre a farmacêutica EMS S.A., a Universidade de São Paulo (USP), a Fundação da Faculdade de Medicina (FFM) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), no âmbito do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE). 

Desde 2017, o Centro de Estudos do Genoma Humano e Células Tronco, localizado no Instituto de Biociências da USP, e o Instituto do Coração (InCor/FM/USP) estão trabalhando na geração de embriões suínos geneticamente modificados visando aos transplantes interespécies, o que corresponde à primeira fase do projeto.

Os pesquisadores da USP (que compõem a startup XenoBrasil juntamente com a EMS), conseguiram alcançar resultados que os colocaram em posição pioneira para a geração dos primeiros leitões com potencial para xenotransplante na América Latina. 

"Há muito tempo se sabe que os suínos têm os órgãos mais semelhantes aos dos seres humanos, mas transplantar simplesmente um órgão de um animal significaria a rejeição hiperaguda, que é a rejeição imediata", explicou Mayana Zatz, geneticista e coordenadora do projeto.
Zatz: genoma do porco tem 98% de homologia (semelhança) com o genoma humano, o que permitiu identificar os genes dos suínos que causam rejeição no ser humano
Zatz: genoma do porco tem 98% de homologia (semelhança) com o genoma humano, o que permitiu identificar os genes dos suínos que causam rejeição no ser humano
O genoma do porco tem 98% de homologia (semelhança) com o genoma humano, afirmou ela, e isso permitiu identificar os genes dos suínos que causam rejeição no ser humano: "Conseguimos ‘silenciar’ os três genes principais e a pesquisa deverá evoluir com a construção da pig facility".

IMPORTÂNCIA SOCIAL – Para entender a importância social dos xenotransplantes, é importante lembrar que foram realizados, entre os anos de 2000 e 2020, dois milhões de procedimentos de transplantes em todo o mundo. E, nos últimos anos, tem ocorrido um aumento da demanda por conta do incremento da sobrevida média das populações.

"No Brasil, a lista de espera era de quase 50 mil pacientes em 2021, mas foram realizados somente 20 mil transplantes. Em consequência, 30 mil faleceram à espera de um transplante – expandindo-se os números para o mundo, a cada 30 segundos morre um paciente por conta da falta de órgãos para o transplante", disse Silvano Raia, coordenador do projeto de xenotranplantes.

A relevância do projeto consiste assim em ajudar a resolver questões como o aumento da oferta de órgãos (rins, em um primeiro momento), diminuição da fila de transplantes e redução de custos relacionados às doenças renais. 

"É um projeto muito diferenciado: trata-se de uma parceria que vem ao encontro do que desejamos no IPT de redes potencializadoras, trabalhando em projetos mais complexos e unindo conhecimentos de saúde e engenharia para auxiliar a resolver um problema da humanidade", afirmou Liedi Bernucci, diretora-presidente do IPT. Para Flavia Motta, diretora financeiro-administrativa do Instituto, esta é a oportunidade de participar de um grande projeto complexo e ampliar o seu conceito com as potencialidades do IPT neste ecossistema de inovação do país: "São forças que se juntam para entregar à sociedade produtos e serviços de grande valia".

O espaço onde será construído o Nutabes no IPT foi escolhido, segundo -Helena, por conta da facilidade de acesso para entrada e saída de materiais, e também para a passagem de ambulâncias durante os ensaios pré-clínicos.
Raia: lista de espera no Brasil era de quase 50 mil pacientes em 2021, mas foram realizados somente 20 mil transplantes
Raia: lista de espera no Brasil era de quase 50 mil pacientes em 2021, mas foram realizados somente 20 mil transplantes
Ernesto Goulart, pesquisador da USP e fundador da startup Xenobrasil, lembrou no evento que o núcleo estará localizado dentro da região de atendimento da maior casuística de transplante renal do mundo.

"A nova estrutura de produção de órgãos dentro do campus do IPT estará localizada a 35 minutos do Hospital do Rim, 25 minutos do Hospital Albert Einstein, 30 min do Hospital das Clínicas e 40 min do Hospital Sirio Libanês. Estes hospitais respondem juntos por cerca de 1.500 transplantes renais por ano no Brasil. Nosso objetivo é transformar a cidade de São Paulo na capital de xenotransplantes da América Latina", completou ele.
 

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