Do Paulistinha à indústria aeronáutica: a contribuição do IPT para a aviação brasileira
Publicado em 23/10/2026
No Dia do Aviador, Instituto resgata sua atuação pioneira no desenvolvimento de aeronaves, na pesquisa de materiais e na formação de profissionais que ajudaram a construir o setor aeronáutico nacional
Muito antes de o Brasil consolidar sua indústria aeronáutica, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) já desenvolvia pesquisas, projetava aeronaves e contribuía para a formação de engenheiros e técnicos especializados. Entre os marcos dessa trajetória está o Paulistinha, avião que se tornou um símbolo da aviação brasileira e contou com o suporte técnico do Instituto em seu processo de fabricação.
A história ganha destaque no Dia do Aviador, celebrado em 23 de outubro, data que, em 2026, marca os 120 anos do primeiro voo do 14-Bis, realizado por Alberto Santos Dumont, em 1906, no Campo de Bagatelle, em Paris.
Instituída pela Lei Federal nº 218, de 4 de julho de 1936, a comemoração homenageia o pioneirismo brasileiro na aviação. Na mesma data, também é celebrado o Dia da Força Aérea Brasileira (FAB).
O IPT e os primeiros passos da indústria aeronáutica

Entre 1934 e 1957, o IPT desempenhou um papel importante no desenvolvimento da aviação nacional. Inicialmente por meio de pesquisas sobre madeiras brasileiras e, posteriormente, com a criação da Seção de Madeiras e Aeronáutica, transformada em Divisão de Aeronáutica, o Instituto participou de iniciativas que contribuíram para estabelecer as bases tecnológicas e industriais do setor.
Nesse período, o IPT projetou aviões e planadores, construiu protótipos, pesquisou materiais e prestou suporte técnico às aviações civil e militar e à indústria aeronáutica. Também fabricou centenas de hélices e chapas de compensado e promoveu cursos de formação de engenheiros e técnicos especializados.
A atuação integrava um projeto do Governo do Estado de São Paulo, iniciado na década de 1930, para estimular o desenvolvimento de uma indústria aeronáutica nacional, diante da crescente importância estratégica da aviação no cenário internacional.
Segundo a pesquisadora Ros Mari Zenha, da unidade Habitação e Edificações do IPT, esse movimento ganhou ainda mais relevância durante a Segunda Guerra Mundial, quando o domínio de tecnologias aeronáuticas passou a representar uma questão estratégica para os países.
Entre os projetos desenvolvidos no período está o pioneiro Bichinho. Outro marco dessa trajetória foi a contribuição do Instituto para a fabricação do Paulistinha, aeronave que ajudou a popularizar a aviação brasileira.
Paulistinha: pesquisa e indústria na construção da aviação nacional
O Paulistinha representa um dos capítulos mais conhecidos da contribuição do IPT à história da aviação brasileira.
Na década de 1940, o Instituto prestou suporte técnico à Companhia Aeronáutica Paulista (CAP), contribuindo para o desenvolvimento de sua capacidade industrial e para a fabricação de centenas de unidades do Paulistinha.
A aeronave tornou-se uma referência na formação de pilotos e na expansão da aviação civil, especialmente por sua utilização em atividades de instrução e treinamento.
A participação do IPT nesse processo demonstra a importância da integração entre pesquisa científica, engenharia e indústria para o desenvolvimento de tecnologias nacionais.
Mais do que contribuir para a fabricação de aeronaves, o Instituto ajudou a desenvolver conhecimento técnico, qualificar profissionais e fortalecer as competências industriais necessárias à expansão do setor aeronáutico brasileiro.
Uma história preservada em livro

A contribuição do IPT para a aviação brasileira foi documentada na obra Pioneirismo nos céus: a história da Aeronáutica do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (1934–1957), publicada em 2006, em parceria com a Editora Narrativa.
Resultado de pesquisa do historiador Roney Cytrynowicz, o livro recupera a trajetória da Divisão de Aeronáutica e reúne registros de projetos, pesquisas e iniciativas desenvolvidas pelo Instituto ao longo de mais de duas décadas.
A publicação foi lançada em 30 de novembro de 2006, na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, durante o ano de comemoração do centenário do voo do 14-Bis.
Segundo Ros Mari Zenha, que coordenou a publicação quando atuava como assessora da Diretoria do IPT, então liderada pelo diretor-superintendente Guilherme Ary Plonski, o trabalho integrou um projeto de preservação da memória institucional, com patrocínio da Fundação de Apoio ao IPT (FIPT).
“Um povo não avança sem conhecer sua história, sem resgatar sua memória e seu patrimônio intelectual e cultural”, afirma a pesquisadora.
Para Zenha, a experiência da Divisão de Aeronáutica demonstra a capacidade do Instituto de atuar em áreas tecnológicas pioneiras e contribuir para o desenvolvimento industrial brasileiro.
“A Divisão de Aeronáutica é mais um capítulo da história de construção de espaços de conhecimento aplicado em campos pioneiros que é a marca do IPT”, destaca.
A pesquisadora também ressalta que a publicação recupera um período importante para a construção de um setor industrial nacional de elevado valor agregado, demonstrando como investimentos em conhecimento e capacidade tecnológica podem impulsionar o desenvolvimento econômico.
Ao preservar essa trajetória, o livro permite compreender como iniciativas de pesquisa aplicada contribuíram para estabelecer competências industriais e tecnológicas que se tornariam estratégicas para o Brasil.
Da pesquisa em madeiras aos projetos de aeronaves
Organizada em seis capítulos, a publicação percorre os principais momentos da atuação do IPT na aeronáutica:
- 1934 — O início das pesquisas: estudos sobre madeiras nacionais marcam a entrada do IPT no campo da aviação.
- Os primeiros projetos: fabricação de hélices e desenvolvimento do primeiro avião projetado e construído pelo Instituto.
- 1940 — A estruturação da área: criação da Seção de Madeiras e Aeronáutica e ampliação da contribuição do IPT para a aviação brasileira.
- O Paulistinha: cooperação com a Companhia Aeronáutica Paulista e suporte técnico à fabricação da aeronave.
- O período pós-guerra: transformações e reorganização da indústria aeronáutica brasileira.
- Até 1957 — Novos desafios tecnológicos: projetos de aeroportos, estudos relacionados à aviação a jato e encerramento das atividades da Divisão de Aeronáutica.
A trajetória da aeronáutica no IPT integra os 127 anos de história de uma instituição cuja atuação está diretamente relacionada ao desenvolvimento científico, tecnológico e industrial do Brasil.
Do estudo de materiais ao suporte à fabricação de aeronaves, essa experiência demonstra como a pesquisa aplicada, articulada às necessidades da indústria e da sociedade, contribui para gerar conhecimento, formar profissionais e fortalecer setores estratégicos da economia nacional.
